Há quase 25 anos, no meu primeiro estágio no mercado financeiro, um dos meus chefes me deu um conselho que nunca esqueci:
“Faça suas análises sempre a partir das fontes primárias"
Na época, eu estava começando a aprender modelagem financeira, análise de empresas e tudo o que fazia parte da rotina de um banco de investimento. Era tentador procurar análises prontas, relatórios de terceiros, opiniões de especialistas.
Mas ele me explicou o problema. Quando você começa por uma fonte secundária, já está começando a análise a partir da interpretação de outra pessoa. O dado chega até você filtrado por uma lente, uma escolha metodológica, uma leitura de contexto.
Se você quer formar sua própria opinião, precisa primeiro olhar para a fonte. Levei esse conselho comigo por toda a carreira. E, muitos anos depois, encontrei exatamente a mesma ideia em um lugar improvável: uma aula de vinhos.
Estava fazendo um curso de certificação quando um aluno perguntou ao professor por que ele deveria perder tempo estudando os vinhos clássicos, se poderia simplesmente conhecer os vinhos mais diferentes, os chamados vinhos “heroicos”, naturais, rebeldes, fora do padrão.
A resposta do professor me marcou pois ele contou que, na faculdade, havia aprendido com um professor algo parecido:
“Antes de ler os rebeldes, leia os clássicos”
Quer criticar Marx? Weber? Keynes? Primeiro conheça profundamente o que eles escreveram. Não basta conhecer a interpretação que alguém fez deles e muito menos um resumo de três parágrafos. E, concluiu, com vinho é a mesma coisa.
Você pode gostar dos vinhos mais naturais, dos pequenos produtores, das regiões improváveis, dos estilos que desafiam a tradição. Mas, antes disso, construa seu repertório. Experimente os clássicos. Entenda por que eles se tornaram clássicos. Só então você estará em posição de contrapor tradição e inovação, com base em suas análises e seus parâmetros.
Tenho pensado muito nisso ultimamente, especialmente observando o mundo da gestão. Nunca tivemos tanta gente ensinando outras pessoas a gerir empresas. Há frameworks para tudo: fórmulas para liderar, playbooks para crescer, hacks para produtividade e influenciadores construindo carreiras a partir de dicas sobre como contratar, dar feedback, fazer reuniões, definir metas, construir cultura, escalar.
Não tenho nada contra isso. Porém, o problema começa quando a “fórmula” substitui o repertório. Quando alguém conhece uma ideia porque viu um post sobre ela, não porque foi à fonte.
É como tentar construir seu paladar de vinhos apenas tomando vinho “diferentão”, sem nunca entender Bordeaux, Borgonha ou Barolo. Você pode até desenvolver preferências. Mas dificilmente desenvolverá repertório.
Recentemente, reli High Output Management, de Andy Grove. O livro foi publicado originalmente em 1983 e, quarenta e poucos anos depois, é impressionante o quanto continua atual.
É claro que o mundo mudou, as empresas mudaram, a tecnologia e a natureza do trabalho também. Entretanto, alguns problemas estruturais e “de base” não mudaram tanto assim.
Grove trata dessas questões com uma clareza quase desconcertante.
Ele começa o livro falando, entre outras coisas, de uma cafeteria. O objetivo é entender como produzir mais “ovos e cafés” para os clientes. É uma imagem simples, quase banal. Mas, a partir dela, ele constrói uma lógica para pensar sobre produção, capacidade, gargalos, indicadores e gestão.
É de uma simplicidade elegante mas não é simplista. Ele nos leva às estruturas fundamentais dos problemas.
Fiquei novamente impressionada ao reler o livro. Enquanto hoje consumimos dezenas de modelos de gestão em uma semana, um livro escrito há mais de quatro décadas continua oferecendo princípios que ajudam a interpretar problemas concretos de empresas que estou acompanhando hoje.
Não digo isso porque ache que devemos copiar o Andy Grove. Mas porque, depois de entendê-lo, podemos pensar melhor por conta própria. Aqui está a diferença entre repertório e espuma: espuma é abundante. Está nos posts, nos vídeos de 60 segundos, nas listas de “5 coisas que todo CEO precisa fazer”, nos frameworks que ganham um nome novo a cada temporada.
O repertório demora mais: exige leitura, experiência “em campo", voltar às fontes. Exige conhecer aquilo que veio antes para entender por que alguém decidiu propor algo diferente depois.
Paradoxalmente, quanto maior o repertório, menos dependente você fica das fórmulas. Você começa a reconhecer padrões. A separar uma ideia realmente nova de uma ideia antiga com uma embalagem nova. A discordar de um clássico, mas com argumentos melhores e, importante, seus. Você constrói seu próprio modelo mental.
Essa é uma das regras de aprendizagem que eu carrego de forma consistente ao longo de quase 25 anos de carreira.
E, depois de beber da fonte, aí sim vá atrás dos rebeldes.
O objetivo de conhecer os clássicos não é virar um conservador. É construir repertório e contraste suficientes para formar uma opinião que seja realmente sua.
Leia Andy Grove. Ou, mais importante do que isso: beba da fonte.
PERSPECTIVAS Upward

Antes da espuma, a fonte. Antes dos frameworks, os clássicos. Antes da opinião, o repertório.

Do ruído ao sinal: quando a clareza define resultados